

Por Sandra Elvas
Cresci a ouvir falar da liberdade, de direitos, de conquistas, de como era viver na ditadura, o medo, a fome e como foi começar a trabalhar com 10, 11 e 14 anos. Ouvi as histórias vividas, contadas e lembradas de tempos que só trazem boas memórias por serem memórias de adolescência e inicio de idade adulta, numa liberdade tão ansiada.
As histórias que não me canso de ouvir, de como era viver sem bens necessários, de como era pedir por favor ao médico da terra para assistir os doentes, em troca não de dinheiro, mas do que havia para poder pagar. De como era bom vestir a única roupa boa e calçar os sapatos ao domingo ou em dias de festa. De como as unhas dos pés ao longo dos anos estão sempre a cair por jogar a bola descalço no Alentejo nas pedras da calçada e com uma bola feita de tecidos ou do que fosse possível. Recordo-me de perguntar pai porque tens sempre essa unha a cair? E com um sorriso no rosto a resposta ser “Foi de jogar à bola descalço, na minha infância não havia dinheiro para sapatos, os únicos que tinha só podiam ser eram usados para ir à escola”. Cresci a ouvir a minha mãe falar da mágoa que tem por não ter podido estudar, fez a 4ª classe e teve de ir para a costura, uma costureira maravilhosa, mas contragosto. Mas nestas histórias de pobreza, imaginem, existe uma alegria contagiante que nos aquece o coração das boas memórias de se ser feliz com tão pouco.
Quando se fala em liberdade, o que é isso? Será que todos sabemos o que nos trouxe um dos dias mais importantes da nossa história?
Recordo conversas com pessoas mais velhas sobre o 25 abril, “Os dias passam, os anos, eu já tenho 60 anos, mas as memórias e os momentos marcantes ficam registados, quando se deu o 25 de Abril, eu tinha quase 11 anos…E foi por aí que me apercebi que algo estava a acontecer, estava na escola frequentava o 2º ano do preparatório, estava a acontecer a REVOLUÇÃO, a escola fechou, eu gritava a caminho de casa “viva/fim à ditadura”, a minha tia levou-me para casa, o meu AVÔ estava em estado de graça, pois ele sofreu mesmo na pele, esteve preso”(Palmira).
Para mim filha de abril um dia marcante, não o vivi pessoalmente não era nascida, abril tem 1 ano a mais que a minha história, mas sinto na pele como se lá estivesse estado, será pelas histórias ouvidas ou será por acreditar verdadeiramente nos valores de ABRIL, acreditar na liberdade, na democracia, nos direitos conquistados, na liberdade de expressão que me assiste, no direito ao sistema nacional de saúde, enfim poderia estar aqui a enumerar muita coisa, mas verdadeiramente sinto que estamos a perder o rumo, o dia da revolução vai perdendo impacto nas novas gerações onde a história não tem eco, possivelmente por não terem vivido oprimidos, com medo, por não terem vivido numa ditadura, por não saberem valorizar a liberdade e por terem muito mais, mas aparentemente serem mais infelizes que os nossos pais e avós.
Não podemos deixar que as gerações atuais e as futuras hipotequem o que tanto custou a conquistar, recordo que o direito ao voto só após o 25 abril passou a ser universal.
Em mim algo se inquieta, quando penso o que a sociedade está a fazer com a sua liberdade? O que cada pessoa faz com os seus direitos quando coloca em causa a democracia que tanto custou a ganhar, será que teremos de assistir a um retrocesso? Será que a história nada nos ensinou?
Termino com as palavras do Armando e da Gabriela sobre o 25 abril para eles foi “um povo a ganhar respeito e dignidade no trabalho, foi fazer o povo sentir-se gente”.
Não deixem morrer o 25 abril, não deixem morrer a liberdade!

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