

Por Paula Marques
Quando comecei a pensar neste editorial, mil frases, mil ideias me vieram à cabeça.
Surgiu-me um punhado de frases, umas do foro pessoal, outras do nosso cancioneiro revolucionário ou ainda palavras de ordem que fazem parte do nosso património coletivo. Frases ou pensamentos como “tenho a idade do 25 de abril”, “nunca podemos dar os direitos conquistados como adquiridos”, “as portas que abril abriu”, “25 de abril sempre, fascismo nunca mais!”, “estás desiludido com as promessas de abril?” e tantas outras. E pus-me a pensar no seu significado para além da frase feita… E da importância de termos a consciência do que querem dizer.
E nesta busca, parei no Zeca…E não por acaso na canção “Teresa Torga”.
As palavras “Mulher na Democracia, não é biombo de sala” e “não há bandeira sem luta, nem há luta sem batalha”, têm bailado nos meus lábios nos últimos tempos.
Celebramos os 50 anos do dia mais bonito da nossa vida coletiva.
Sabemos (quem o viveu) ou imaginamos a imensa e vibrante alegria, a ansiedade, a preocupação e a emoção daquela madrugada, dia e período subsequente. Da profunda transformação que o país viveria. Deixávamos para trás 48 anos de ditadura fascista, de repressão, de miséria, de poucochinho. De um povo que se queria ignorante para não contestar, bem-comportado para ser bem visto pelo mundo cinzento que professava os mesmos ideais. Pela mão, vontade e resistência de gente brava e corajosa “emergimos da noite e do silêncio e livres habitamos a substância do tempo” **
Conquistou-se o direito ao voto livre e universal, o direito ao divórcio, o direito à greve, a liberdade de expressão, entre outros. A mulher conquistou o direito de o ser, sem pedir licença. O poder local democrático passou a ser uma realidade. Começámos a construir o Estado Social: o SNS – Serviço Nacional de Saúde, a democratização da educação, a instituição do salário mínimo, a segurança social. O combate ao analfabetismo, o combate à mortalidade infantil. Impossível também não referir o SAAL – serviço de apoio ambulatório local e a brutal transformação que gerou: a habitação era agora um direito e um direito em que a população tinha voz ativa na defesa e na sua concretização.
É inegável que a democracia portuguesa, nas suas mais diversas formas e expressões fez avanços notáveis rumo à construção de uma sociedade mais justa, mais livre mais igualitária. O país de 24 de abril de 1974 era deixado para trás. Temos hoje uma sociedade mais plural, mais justa, mas sobretudo mais livre. No entanto todos estes avanços não chegam, persistem ainda grandes desigualdades e limites à liberdade coletiva e individual. Com abril cumpriu-se, de facto, a soberania popular e a liberdade, mas falta cumprir a igualdade. Quando falamos da falta de igualdade, podemos e devemos falar no plural. Porque de facto é disso que se trata: das desigualdades sociais nas suas diversas formas: no acesso à saúde, à educação, à habitação, à cultura, ao emprego, à mobilidade. As desigualdades no acesso à informação. As desigualdades provocadas pela assimetria que ainda se sente entre os vários territórios que compõem o País, a cidade. A falta de liberdade na escolha de vida tantas vezes condicionada pelas desigualdades que acabámos de enunciar. A falta de liberdade na escolha de vida resultante do preconceito social e moral quanto à origem de cada qual, à cor da pele, à orientação sexual, à forma de viver os afetos.
Num momento em que assistimos ao crescimento e assento da extrema-direita no parlamento; a diversas tentativas de relativizar o 25 de abril e a conquista da liberdade e até à tentativa de pôr em causa o regime democrático; a iniciativas com sabor a Estado Novo de regresso ao “Deus, Pátria e Família”.
Num momento em que assistimos ao projeto de enfraquecer o Estado Social com o desinvestimento no SNS e abertura de portas ao crescimento do negócio privado da saúde; ao retrocesso na construção do direito à habitação e investimento na habitação publica com a ideia de que “o que é preciso é deixar o mercado funcionar que este resolve tudo”; à relativização ou desvalorização das alterações climáticas. Ao discurso demagógico e populista de que a culpa de todo o mal, é da população estrangeira migrante. Ao discurso vazio de solidariedade e empatia. Num momento em que vemos escalar os conflitos militares e a devastação de territórios e povos, há que saber por quem se está. No mundo, no país e na nossa Lisboa.
Se queremos ser mais do que memória e história se queremos ser futuro, saibamos no dia a dia, lutar por tudo aquilo que nos faz vibrar quando cantamos a Grândola!
É na luta quotidiana que encontramos persistência e resistência. É aqui que @s Cidadãos Por Lisboa se encontram, trabalham e lutam.
Regresso neste final ao Zeca e a Teresa Torga: “Não há bandeira sem luta, não há luta sem batalha”, vamos a elas!
Abril é teu, defende-o
*José Afonso “Teresa Torga”
** Sophia de Mello Breyner “25 de abril”

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