

Por Maria João Pica
Em 1776, os EUA prometiam autodeterminação e liberdade, mas deixaram para trás comunidades marginalizadas, especialmente os negros. A Revolução Americana foi traída. Poucas décadas depois, a Revolução Francesa traiu-se também: trouxe promessas de igualdade, mas acabou em tirania, sem beneficiar escravos e mulheres. Trotsky considerou que a Revolução Bolchevique tinha sido traída nas suas bases por Stalin.
Em Portugal, o 25 de Abril trouxe a Revolução dos Cravos e, na Checoslováquia, a Revolução de Veludo foi relativamente pacífica. Václav Havel emergiu como presidente, mas acabou desiludido com a divisão das nações. Em “The Power of the Powerless”, Havel define a verdadeira revolução como a transformação da consciência humana. No entanto, mesmo sem derramamento de sangue, todas as revoluções são traídas de alguma forma.
Nasci 21 anos após o 25 de Abril. A minha família viu na lei do divórcio a sua oficialização: desde dos meus avós até à minha mãe. O 25 de Abril abriu portas para a autonomia das mulheres, embora não de forma revolucionária. A minha mãe, por exemplo, conseguiu licenciar-se, mas não ganhava mais do que o meu pai que nunca chegou a concluir o Ensino Secundário.
Em 1975 já Galvão de Melo lembrava que “a revolução não foi feita para putas e paneleiros!”, Álvaro Cunhal em 1980 não pode deixar de dizer que a homossexualidade era “uma coisa muito triste”.
Antes de execrar Melo ou Cunhal, vou fazer o exercício de lembrar que a OMS só retirou a homossexualidade da lista da CID em 1990… e que as revoluções são sempre traídas. A minha liberdade traiu as suas noções revolucionárias.
Nós ficamos com os cravos, não ficamos encravadas.
Estes fatores não me impedem de lembrar a luta antifascista que os comunistas travaram no nosso país, nem de reconhecer os militares que efetivaram o golpe… mas também não me permite esquecer que a Revolução deles não me incluía. Essa revolução vai-se desvirtuando e, ao contrário das bandeiras da direita que querem distorcer a sua essência, é importante multiplicá-la, não diminuir o seu valor. Porque a revolução é o “amanhã”, não o “ontem”, nem mesmo o “hoje”.
Quando me dizem que não vivi a ditadura, não posso deixar de sorrir: há uma certa candura em acreditar-se que a ditadura morre no momento em que é deposta, que o fascismo abandona os seus hóspedes de bom-grado, que não a vi e experienciei através da minha família.
No país onde nasci, faltavam 15 anos para a legalização do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, e o látego do salazarismo ainda persistia, e persiste, mesmo hoje.
Hoje há 50 fascistas no Parlamento — fascistas que os nossos mecanismos não conseguiram travar, fascistas que deixariam os autoritários desiludidos: demasiado ordinários para salazaristas, demasiado tacanhos para nazis. Persiste a velha lógica de que a “revolução não será televisionada” mas, também, de que arte pode salvar a democracia. Os cabarés berlinenses preveniram tão bem o Holocausto, não foi?
Abril cumpriu-se pelo menos para os homens brancos e heterossexuais, que agora têm liberdade para expressar as suas opiniões. No entanto, são eles os primeiros a comprometer os ideais de Abril. Porque tal como em 1776, ELES continuam a ser a prioridade inalienável de todas as Revoluções.
Mas não se confunda opinião com discurso de ódio — escravizar as mulheres ainda é escravatura, criptofascismo ainda é fascismo.
Abril, com o seu significado de “Amanhã” é o Abril que preservo, acolho e protejo.
Negoceie-se então o caminho mas não o Amanhã.

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