

Por António Avelãs
Foi o povo quem criou a “revolução dos cravos”, dando ao golpe militar dos capitães de Abril uma dimensão que o “golpe” não tinha, apesar das nobres intenções que o sustentavam.
A assunção da dinâmica transformadora da ação popular, simbolicamente traduzida na oferta pelos populares dos cravos aos militares revoltosos e de imediato sublinhada na enorme comemoração do 1º de Maio, corporizou-se em processos de participação que, sem recusar o apoio e a intervenção das forças políticas, transbordaram na criação, por iniciativa própria, das comissões de moradores, na dinâmica das cooperativas de habitação, na Reforma Agrária, na revitalização dos clubes de bairro, etc. Quem não se sente emocionado (e talvez triste) ao recordar o hino à participação popular que é a canção “Os índios da Meia Praia” de José Afonso?
O 25 de Novembro travou esta dinâmica, institucionalizando uma democracia formal — que urge, contudo, defender — assente, de facto, no poder decisório das “instituições” consagradas. É neste limitador quadro institucional “novembrista” que, contudo, se tem mantido alguma dinâmica de iniciativa popular que não se restringe ao (importante) ato de votar. Estamos longe do tão cantado “Poder Popular” dos dias pós-25 de Abril, mas ainda há força para que o povo, concretamente corporizado nas dinâmicas de cada bairro ou de cada movimento dito inorgânico por causas mais que justas, se assuma como parte relevante na construção da sociedade em que deseja viver.
A participação popular não contraria o poder das instituições representativas a quem o voto ou a legislação confere legitimidade. Certo é que estes poderes constituídos tendem a ignorar ou a dificultar as dinâmicas populares que, temem eles, lhes pode fugir ao controlo. Mas é a dinâmica popular que dá ”sangue e alma” à vida democrática, sacudindo-a, evitando que ela se limite à sonolência do ritual eleitoral de tantos em tantos anos.
Os Cidadãos Por Lisboa (CPL) assumem o papel de dinamizar, nos limites da sua capacidade, a participação da população de Lisboa na defesa dos seus interesses coletivos, na luta pelas melhorias a introduzir nos seus bairros e nas suas ruas, nos meios de transporte de que se servem (e que não raras vezes não “servem adequadamente” os interesses das populações), nos apoios aos mais idosos, na exigência de serviços de saúde que localmente respondam às necessidades, enfim, em tudo o que a melhoria da qualidade de vida exige. Não estamos em oposição aos poderes institucionais: participamos com vereadores na Câmara Municipal de Lisboa, com deputados na Assembleia Municipal e com eleitos em algumas freguesias da cidade. Mas acrescentamos-lhe — por vezes em clara oposição às decisões desses órgãos — o poder e a dinâmica criadora e participativa das populações coletiva e democraticamente empenhadas na construção de um melhor viver no seu quotidiano.
