Voto de pesar 01/076 Maria Barroso – Homenagem a uma mulher forte

Agendado: 76ª reunião, 7 de Julho de 2015
Debatido e votado: 76ª reunião, 7 de Julho de 2015
Resultado da Votação: Subscrito por todos os deputados municipais e aprovado por unanimidade com aplausos prolongados
Consultar voto em PDF anexo
Passou a Deliberação: 183/AML/2015
Publicação em BM: 5º Suplemento ao BM nº 1116

Voto
Maria de Jesus Barroso Soares nasceu em Olhão, a 2 de Maio de 1925, filha de Alfredo José Barroso, oficial do Exército, e de Maria da Encarnação Simões, professora primária. Foi a quinta de sete filhos. Morreu na madrugada de hoje, com 90 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa.

Grande lutadora da liberdade contra todas as formas de tirania, Maria Barroso distinguiu-se desde muito cedo como actriz. Diplomou-se em Arte Dramática, na Escola de Teatro do Conservatório Nacional e licenciou-se, mais tarde, em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde conheceu Mário Soares, com o qual se casou quando ele se encontrava preso pela ditadura.

Trabalhou com Amélia Rey Colaço no Teatro Nacional D. Maria II, sob a direcção de Palmira Bastos. No cinema, participou em filmes de Paulo Rocha e Manoel de Oliveira, nomeadamente em “Benilde ou a Virgem Mãe”.

A sua promissora carreira de actriz não a impediu de intervir activamente na resistência à ditadura, nomeadamente através das sessões de poesia que fazia por todo o país, declamando, com a sua extraordinária dicção e presença, os poetas proibidos, o que acabou por implicar a sua saída, por ordens da PIDE, do Teatro Nacional.

Em 1969 foi candidata a deputada pela Oposição Democrática e participou no III Congresso de Aveiro, em 1973, sendo a única mulher a intervir na sessão de abertura. No mesmo ano esteve em Bad Münstereifel, na fundação do Partido Socialista, com Mário Soares, cujos exílios partilhou. Companheira de uma vida de Mário Soares, nunca prescindiu, no entanto, da sua própria autonomia, nas posições politicas e na acção.

Regressou a Portugal com o 25 de Abril, tendo sido eleita deputada pelo Partido Socialista à Assembleia da República, pelos círculos de Santarém, Porto e Faro, nas legislaturas iniciadas em 1976, 1979, 1980 e 1983.

Foi primeira-dama de Portugal durante dez anos, papel que exerceu com brio e dignidade, continuando a lutar pelos valores da família e da liberdade, bem como contra todas as formas de racismo, xenofobia, antissemitismo e exclusão social.

Foi distinguida com o título de Doutora Honoris Causa pelo Lesley University, pela Universidade de Aveiro e pela Universidade de Lisboa, além de Professora Honorária da Sociedade de Estudos Internacionais de Madrid. Recebeu também a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade a 7 de Março de 1997.

Foi agraciada com inúmeros prémios nacionais e internacionais e com as mais altas condecorações de Portugal, Hungria, Grécia, Suécia, Venezuela, Espanha, Brasil, Zaire, França, Colômbia, Alemanha, Luxemburgo, Finlândia, Dinamarca, Bulgária, Países Baixos e Malta.

Integrou e presidiu às mais diversas organizações não governamentais, em defesa da liberdade, dos direitos humanos, da solidariedade e dos direitos das mulheres, destacando-se a Presidência da Cruz Vermelha, da UNICEF em Portugal e da Fundação Pro-Dignitate. Teve igualmente um papel activo em associações culturais, tendo feito parte do júri de diversos prémios culturais.

Franzina e de pequena estatura, Maria de Jesus era capaz da maior coragem e de total dedicação, não apenas à família, mas a todos os seus compatriotas e às causas que abraçou com determinação e persistência. Várias gerações de crianças e jovens conheceram, no Colégio Moderno, o misto de ternura e autoridade que impregnou a sua vida.

Deixa um sentimento de orfandade em todas e todos quantos tiveram o privilégio de com ela privar. Mas deixa sobretudo uma marca indelével na História de Portugal – o país que tanto amou e tanto a amou, por ver nela uma mulher forte, que ficará para sempre como uma grande referência cultural, republicana e democrática do século XX português.

A Assembleia Municipal de Lisboa curva-se perante a morte de Maria Barroso, envia as mais sentidas condolências a toda a família e delibera recomendar que o Município de Lisboa lhe preste as devidas homenagens, contribuindo para que o seu nome e o exemplo da sua vida fiquem condignamente ligados à memória da cidade de Lisboa.

Lisboa, 7 de Julho de 2015

A Presidente
Helena Roseta

O Representante do GM do PS
Rui Paulo Figueiredo

A Representante dos Deputados Municipais Independentes
Floresbela Pinto

Nota: Este voto foi subscrito por todos os Deputados Municipais